sexta-feira, 25 de março de 2011

O esclarecimento kantiano e o ensino jurídico


Marcelo Antonio Rocha

O texto “Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?” (1784), escrito por Kant sem muita pretensão, acabou tornando-se célebre. O esclarecimento é a saída da menoridade intelectual da qual o próprio homem é culpado se ela ocorre por covardia ou preguiça. O lema do esclarecimento contra qualquer forma de tutela auto-imposta é: ouse pensar (sapere aude). Ousar pensar por própria conta e risco é algo que demanda um desempenho e um esforço individuais e, por isso, é mais confortável transferir para outro a responsabilidade da reflexão. Quem abre mão da capacidade de pensar com autonomia torna-se um incapaz e permanece em perpétua menoridade intelectual.

Kant considera que existe uma administração da menoridade intelectual sob a responsabilidade daqueles mais esclarecidos, os tutores (professores, advogados, juízes, médicos, religiosos...), que tanto a supervisionam quanto a promovem incutindo nos tutelados a idéia de que o esclarecimento – que só é possível pelo pensamento autônomo – é algo perigoso e inútil. Para manter a ordem e os privilégios, os tutores lançam mão da sugestão de modelos de comportamento, da estereotipia e da expropriação da capacidade dos tutelados de formar os próprios juízos. Preceitos e fórmulas, como esquemas socialmente produzidos, substituem o trabalho do pensamento autônomo e caracterizam a grande massa dos tutelados como destituída de reflexão.

Os tutores são aqueles que fornecem os esquemas que orientam as ações dos tutelados. Os tutelados são considerados como menores, pois tal caracterização diz respeito justamente ao fato de que, sob a influência dos tutores, os tutelados são incapazes de pensar por conta própria. Para garantir a exploração da consciência de muitos, os tutores utilizam como meio, esquemas que infantilizam e que exigem, para a sua compreensão, que os tutelados tenham o nível intelectual de uma criança. O recurso utilizado para alcançar tal intento é fornecer como esquema, representações estereotipadas da realidade, clichês ou imagens repletas de um significado retrógrado com o intuito de padronizar e direcionar o comportamento e a percepção das pessoas. Uma vez que o esquema pretende dar um sentido à realidade, a adesão das pessoas a esse sistema é algo inquestionável. Os tutelados deixam de fazer uso de sua faculdade de julgar em razão de esquemas fabricados pelo meio social no qual estão inseridos. A idéia central aqui é que o sujeito, por covardia ou preguiça, troca a sua autonomia de julgar por esquemas sociais que, como facilitadores do entendimento, significam, em bloco, o mundo.

A experiência é expropriada dos tutelados ao ser substituída por clichês ou fórmulas estereotipadas e a sua imaginação que, na filosofia kantiana, é um processo ativo e justamente por isso produz o juízo autônomo, acaba por se atrofiar. A imaginação é um processo fundamental para o processo do conhecimento pois ela vai fornecer as regras que possibilitam ao entendimento julgar os dados recebidos pela percepção. Mas, uma vez que o conteúdo percebido, o clichê, já traz em si toda a orientação de como e o quê se deve pensar e como se deve agir, então o papel da imaginação passa a ser de mera recepção passiva de juízos pré-formados, perdendo a sua função ativa e determinante do processo de conhecimento.

Num mundo em que é preciso sempre produzir algo, o pensamento que sempre teve como condição o ócio, uma vez que a produção dos juízos exige tempo, é considerado perda de tempo. O tempo perdido com a reflexão deve ser aproveitado para a produção. Mas, de toda forma, é preciso pensar e, para economizar tempo, tudo o que deve ser pensado é fornecido aos tutelados de maneira acabada. A estereotipia atua aqui como um mecanismo psicológico importante pois ao sugerir em blocos modelos de comportamento, evita-se que cada um tire as suas próprias conclusões. Sob a pena de ficar de fora do sistema, a sugestão é aceita incondicionalmente pelos tutelados como sendo uma regra da natureza.

O sentido do texto kantiano vai além do seu tempo. Nada mais atual do que a irreflexão e a repetição de fórmulas estereotipadas de comportamento e compreensão da realidade. Nada mais atual do que transferir para o outro a responsabilidade por nossa existência. Tutores não faltam, em qualquer esquina encontra-se alguém disposto a nos vender o seu sentido da realidade, a nos mostrar a verdade. Tutelados também não faltam, principalmente porque o alheamento de nós mesmos é cada vez mais incentivado pelo “mercado”, pelos meios de comunicação de massa e pelas instituições de ensino.

Talvez a liberdade de pensar e criar com ousadia o Direito, sem os seus esquemas conservadores, seja a matéria mais urgente a ser ensinada aos alunos e também o maior desafio de quem trabalha com o ensino jurídico. É claro que para isso exige-se que o conhecimento da cultura jurídica seja incentivado para além do mero esquema da repetição de fórmulas e de comportamentos.

É preciso educar para a liberdade, para a criatividade, uma vez que o conservadorismo jurídico, no caso brasileiro, muitas vezes serve apenas para reproduzir o esquema da injustiça social. O país precisa de operadores do Direito criativos, autônomos e capazes de julgar com discernimento. Operadores que não apenas tenham a lei como uma fonte de renda, mas que também possam e desejem, no mínimo, concretizar o ideal constitucional de justiça. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pálido ponto azul







Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem amam, todos a quem conhecem, qualquer um do quem escutaram falar, cada ser humano que existiu, viveram as suas vidas. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol. 

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pensai nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração desse ponto. Pensai nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores dalgum outro canto, quão frequentes as suas incompreensões, quão ávidos de se matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa. O nosso planeta é um grão solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de algures para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que alberga a vida. Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar. Visitar, pôde. Assentar-se, ainda não. Gostarmos ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido.

Carl Sagan

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Genocídio contra índios Guarani Kaiowá em Mato Grosso!



Massacre de Indios Guarani Kaiowá em Mato Grosso! Não feche os olhos!
Estas fotos foram tiradas por um fotógrafo que não pode se identificar pois corre risco de morte. Se trata de um genocidio que está acontecendo no Brasil, não devemos fechar os olhos para esta gente que está sofrendo todo tipo de discriminação e violencia. As crianças morrem de desnutrição e os adultos, por não vislumbrar saídas acabam se entregando à bebida ou se suicidam. A mortandade infantil é altíssima e os assassinatos também. Os medios de comunicação se negam a divulgar isto porque lá é "terra de Gilmar Mendes" (segundo as próprias palavras do fotógrafo que plasmou estas atrocidades) , uma mafia que não tem medo de assassinar quem for questionar ou até tentar ajudar esta pobre gente. O objetivo é transformar as reservas em plantação de soja e criação de gado e isso já está acontecendo!!!

Tem uma foto de um índio morto a pauladas no rosto, indios jovens que se suicidam vítimas da depressão e o alcoolismo e crianças mortas de desnutrição. As aldeias são incendiadas para forçar os índios abandonar a terra...Vejam os desenhos das crianças, em todas as imagens aparece gente sendo assassinada pois essa é a realidade destes pequenos filhos esquecidos do Brasil!


Por favor, repasse, queremos que isto chegue às mãos de alguma pessoa que possa ajudar!!!!


Segundo o fotógrafo que nos encaminhou estas fotos a única possibilidade para estos índios é a interferencia de alguma instituição de peso ESTRANGEIRA de direitos humanos pois a MAFIA que está exterminando estos índios está infiltrada em várias instancias do poder e são poucos os que tem coragem de fazer alguma coisa pois estes mafiosos ameaçam e matam mesmo!


Contato comigo:
Natalia Forcat

NaT / Estúdio de Ilustração e Soluções Visuais

http://fotolog.terra.com.br/nat_forcat:81

Fones: (11)5594-5857 e  7167-0868 / São Paulo-Brasil


























Fonte: http://blog.forumeducacao.zip.net/
Sugerido por Luara Colpa: http://luaracolpa.blogspot.com/

sábado, 28 de agosto de 2010

De que serve a bondade




1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.

Bertold Brecht

Elegia 1938



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

Canto Esponjoso



Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfêmia.
Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto. 

Carlos Drummond de Andrade